Ensinando a ousar ou a mediocridade

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Post (0208)

A cada minuto de nossas vidas estamos sempre assumindo dois papéis: o de professor e o de aluno, dependendo do momento.

Porém, em regra, somos maus professores, porque pregamos a mediocridade, inibimos a audácia, coibimos o risco, desestimulamos a galhardia. Ser medíocre é ser comum, mediano, modesto, despretensioso é estar seguro.

Empregados sem empregos nossas escolas de ensino fundamental privilegiam uma alfabetização metódica, padronizada. São nove anos básicos de estudos sem incentivo à criatividade e à ousadia. Depois vem o ensino médio que por sua vez, produz exércitos dotados de baionetas com as quais assinalarão “x” dentre as alternativas possíveis para, aí sim, ingressando no chamado ensino superior, compor uma legião de empregados para um mundo sem empregos. A própria estrutura de ensino promove a subserviência, seja por intermédio do método expositivo de aulas, seja através do respeito incólume às hierarquias, seja por meio dos trabalhos de conclusão ou estágios supervisionados, sempre focalizados em grandes empresas e com conteúdo discutível.

Nosso modelo de ensino não instiga o pensar – a História é para ser decorada, e não entendida. A Matemática é para se aprender por tentativa e erro, e não por tentativa e acerto. O Português tem muitas regras, não se sabe para quê.

Abolimos as aulas de Educação Moral e Cívica porque remetiam à lembrança dos tempos da ditadura, em vez de modernizarmos seu programa. O resultado é que hoje não se sabe mais cantar o Hino Nacional, o qual só é ouvido em jogos de futebol. Foi-se embora o culto ao patriotismo e o amor ao verde-amarelo.

Mediocridade ensinada nossa mediocridade ensinada acaba permeada em nossas vidas sem que nos apercebamos disso. Nossas empresas tornam-se medíocres porque não têm o gene do empreendedorismo, em especial o de oportunidade, aquele que agrega valor, que produz riqueza, que semeia empregos qualificados e de forma sustentada. Falta-nos a ousadia para adotar novas práticas, da remuneração variável ao horário flexível, da gestão compartilhada à participação nos resultados.

Nossa mediocridade ensinada congela nossos ímpetos corporativos – impedem-nos de investir em nossas próprias idéias, de acreditar em nossos mais castos e ambiciosos sonhos e se mostra presente em nossas vidas pessoais, exacerbando nossa timidez, trazendo consigo a hesitação por uma palavra, por um beijo, por uma conquista mútua.

Tempera relações sem usar sal ou pimenta, adota a monotonia e culpa a rotina. Observe como nunca somos medíocres no início de um namoro, da troca de olhares ao flerte, do perfume das flores ao sabor dos bombons. Tudo isso até o primeiro beijo, o único de fato verdadeiro, pois dele deriva muitos outros até os finalmente protocolares, como a nota cinco necessária para se passar de ano.

Pílula azul ou vermelha? – vivemos em uma nação na qual após mais de meio século, a terra ainda devolve com fartura tudo o que nela se planta. Não somos vitimados por catástrofes naturais. Somos dotados de grande simpatia e predisposição ao trabalho. Então, por que sermos medíocres?

O que nos impede de produzir em larga escala – a criatividade de nossa publicidade, a inteligência de nosso design, a beleza de nossa moda, a eficiência de nossa agroindústria, a ousadia de milhões de pessoas que teimam em se manter vivas com um punhado de reais ao longo de todo um mês?

Ou a vida é uma aventura ousada, ou não é nada – do contrário, não vivemos, apenas vegetamos. À luz de um ícone criado no filme “Matrix”, podemos tomar a pílula azul, esquecer tudo isso, e tratar o ensino com objetivo exclusivo de satisfazer estatísticas, empenhados em reduzir índices de evasão e elevar taxas de escolaridade. Mas podemos optar pela pílula vermelha, e incentivar a escola democrática, substituir a forma desinteressante e desatrelada da realidade de educar pelo estímulo à curiosidade, encorajando o aprendizado ao invés do ensino porque ousadia é uma forma de ser e não de saber.

Texto de Tom Coelho,  educador, conferencista e escritor com artigos publicados em 17 países.

NG Canela – Julho 2013

Sobre Norberto Geraldi

Residente em Canela / RS / Brasil - Aniversário 16 julho - Brasileiro - Casado
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